Imagem: Tiago Priebe
Na era do print editável, cartórios passam a “congelar” provas digitais com fé pública
O ambiente digital tomou conta da nossa vida cotidiana. Notícias, posts, conversas, screenshots, vídeos e até contratos circulam nas telas de celulares, tablets e computadores. Mas essa abundância de informação tem um lado crítico: é extremamente fácil manipular, alterar ou simplesmente negar que algo foi publicado num determinado momento. Essa fragilidade não é apenas técnica, ela impacta disputas judiciais, conflitos comerciais e até questões cotidianas onde a prova digital pode fazer toda a diferença.
Na semana passada os cartórios de notas de todo o Brasil deram um passo importante para responder a essa demanda. A partir de 5 de janeiro entrou em operação um serviço chamado e-Not Provas, que permite registrar conteúdos digitais com fé pública, ou seja, com validade jurídica formal atestada por um tabelião, o que representa um salto na forma como provas oriundas da internet podem ser capturadas e preservadas.
A sociedade migrou para o digital, e com isso cresceram também as disputas que dependem de conteúdos originados nesse ambiente. Processos judiciais, conflitos empresariais e litígios civis frequentemente envolvem páginas da internet, postagens em redes sociais e conversas por aplicativos, conteúdos que podem ser facilmente apagados, alterados ou contestados. Sem mecanismos eficazes de comprovação, uma simples captura de tela pode não bastar em uma disputa que exija prova robusta.
É nesse contexto que surge o e-Not Provas, uma ferramenta desenvolvida pela plataforma oficial de cartórios, o e-Notariado, para coletar e autenticar conteúdos digitais de forma segura e juridicamente reconhecida. O sistema atua com a supervisão direta de um tabelião de notas, conferindo fé pública ao conteúdo registrado e criando uma linha do tempo confiável daqueles dados no momento exato em que foram capturados.
Como funciona
O diferencial da nova ferramenta está no cuidado técnico e jurídico do processo de captura. Em vez de depender de prints manuais, gravações caseiras ou documentos improvisados, a coleta é feita em um ambiente virtual isolado e controlado, onde o conteúdo é acessado por um navegador dedicado exclusivamente para essa finalidade. Isso significa que não há possibilidade de alterações, edições ou interferências externas durante a captura dos dados, tudo fica registrado exatamente como estava no momento solicitado.
Após essa coleta, o sistema gera um código hash criptográfico, uma espécie de assinatura digital que assegura a integridade da prova e permite verificar ao longo do tempo se o conteúdo foi alterado após a captura. Esse registro permanece armazenado por até cinco anos e pode ser utilizado em processos judiciais ou administrativos sempre que necessário.
Por que isso é tão relevante?
Vivemos uma era em que conteúdos digitais podem ser manipulados com facilidade, desde um simples print que foi editado até uma página de internet que desapareceu do ar. Isso traz uma complexidade enorme para quem precisa produzir provas confiáveis, seja em uma disputa contratual, em uma investigação ou em litígios de qualquer natureza.
Antes do e-Not Provas, muitas pessoas e empresas recorriam a mecanismos informais ou técnicos de captura, que muitas vezes não resistiam a contestações justamente por não terem uma certificação formal ou por não haver um registro que fosse incontestável em termos legais. Com essa nova ferramenta, a prova digital deixa de ser apenas um print duvidoso ou um arquivo que alguém poderia alegar ter sido alterado e passa a integrar um processo com respaldo notarial e fé pública.
O limite da verificação: existe validação, não juízo de veracidade
Importante destacar que o serviço não tem por objetivo confirmar a veracidade ou o conteúdo factual das publicações, tampouco analisar se aquilo que foi capturado é verdadeiro ou não. A função do e-Not Provas é atestar juridicamente que aquele conteúdo existiu exatamente como estava, em determinada data e horário, no endereço digital indicado. A partir daí, cabe aos órgãos judiciais ou administrativos interpretarem o valor daquele conteúdo no contexto do caso concreto.
Implicações práticas para o dia a dia
Essa iniciativa representa uma barreira tecnológica contra a manipulação de conteúdos no ambiente digital, que se tornou uma arena central de comunicação e provas no mundo moderno. Contratos, ofertas publicadas em sites, mensagens de negociadores, postagens de testemunhas, conteúdo de redes sociais, tudo isso agora pode ter um registro formal que resiste à contestação mais técnica.
Para profissionais do Direito, empresas e cidadãos, isso significa:
- Maior segurança jurídica na produção de provas digitais.
- Redução de disputas sobre autenticidade de conteúdos em processos judiciais ou administrativos.
- Ferramenta acessível digitalmente, com custo alinhado ao de uma autenticação notarial tradicional.
- Preservação da integridade da prova, mesmo em ambientes onde dados podem desaparecer rapidamente.
Um passo à frente no controle da informação
O e-Not Provas entra em cena justamente no momento em que a sociedade busca equilíbrio entre liberdade digital e responsabilidade jurídica. Enquanto a internet se consolida como espaço de expressão e negócios, cresce também a necessidade de mecanismos que garantam a confiabilidade das evidências produzidas nesse cenário.
Autor: Patrícia Loureiro Steffanello
Sócia-fundadora da Life Marketing e Comunicação
Copywriter, Especialista em Neuromarketing e Marketing Estratégico
@patisteffanello | 💼
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