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O que o Orkut nos ensinou sem querer
Ninguém falava de "branding", "engajamento" ou "persona". Mas, sem saber, estávamos escrevendo os primeiros capítulos do marketing digital no Brasil. Um marketing intuitivo, humano e, talvez por isso mesmo, mais verdadeiro.
As comunidades eram a alma do lugar. Tinha comunidade pra tudo: pra quem amava pão com manteiga, pra quem odiava segunda-feira, pra fãs de marcas, bandas, signos e até dos próprios amigos. Era ali que a mágica acontecia. A gente não apenas seguia uma marca, a gente declarava amor, brigava por ela, ria dela. E isso, para quem soubesse observar, já dizia muito sobre o comportamento do consumidor: as pessoas não querem só consumir, querem pertencer.
No Orkut, a autenticidade não era estratégia. Era só o jeito de ser. As marcas que tentavam falar “bonitinho demais” não colavam. O público sacava rápido quando alguém entrava na festa sem ser convidado. Por outro lado, quando uma empresa entendia a linguagem do lugar, quando fazia piada, quando ouvia, quando participava, ela era aceita como se fosse um de nós. Era como aquele tio descolado que sabia jogar conversa fora sem soar forçado.
Foi também ali que o velho boca a boca ganhou tração digital. Um comentário em uma comunidade podia lotar um restaurante, derrubar a reputação de um produto, ou transformar um desconhecido em celebridade. Sem patrocínio, sem impulsionamento. Só com confiança.
Talvez por isso o Orkut pareça hoje tão puro: porque as conexões ainda vinham antes dos algoritmos.
Os perfis, com suas cores berrantes e depoimentos melosos, eram uma vitrine daquilo que a gente queria mostrar ao mundo. Era um exercício primitivo de curadoria, e uma lição involuntária para quem hoje tenta entender o consumidor digital: as pessoas não querem ser vistas como alvos. Querem ser vistas como únicas.
E havia também o tempo, ou a falta dele. Memes e modas nasciam e morriam num piscar de olhos. Quem chegava atrasado perdia o bonde. As marcas que aprenderam a surfar aquela velocidade entenderam uma coisa simples, mas poderosa: no mundo digital, relevância tem prazo de validade curto.
O Orkut nos deu tudo isso. De graça. Sem alarde. E, como tudo que é bonito demais, foi embora antes que a gente aprendesse a agradecer.
Hoje, quando olho para as redes sociais polidas, calculadas, cheias de estratégias e métricas, me pego com saudade daquele tempo em que as conexões eram mais imperfeitas, mas mais reais.
Talvez o maior ensinamento do Orkut tenha sido esse: não existe algoritmo que substitua o afeto.
E se o marketing ainda quiser dizer alguma coisa daqui pra frente, talvez valha lembrar de onde ele aprendeu a andar.
Autor: Patrícia Loureiro Steffanello
Sócia-fundadora da Life Marketing e Comunicação
Copywriter, Especialista em Neuromarketing e Marketing Estratégico
@patisteffanello | 💼
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